O chamado Setembro Amarelo, que deveria ser uma campanha de conscientização e acolhimento sobre a depressão e o suicídio, pois não passa de um espetáculo de hipocrisia. São frases prontas, cartazes coloridos, campanhas de “abraçar a vida” e “pode contar comigo”, mas, na prática, poucos realmente estão dispostos a ouvir, compreender e sustentar o peso de alguém que está à beira do abismo. O discurso bonito de redes sociais não corresponde à realidade de quem, de fato, convive com uma mente suicida.
Quem já esteve nesse lugar sabe: não são palavras vagas que sustentam uma vida. “Procura ajuda”, “você precisa de Deus”, “conte comigo” — frases repetidas como mantras vazios que mais afastam do que aproximam. Porque a verdade é que, na hora em que a dor aperta, quase ninguém fica. E isso pesa.
Tratamentos existem, sim, mas a negligência é maior. Muitos profissionais de saúde mental estão mais preocupados em cumprir horários e passar rapidamente para o próximo paciente do que em oferecer cuidado real. São raros aqueles que enxergam o paciente como ser humano e não como apenas mais uma consulta marcada no dia. O vínculo, que deveria ser a base do processo de cura, se perde em meio à pressa, ao cansaço e à falta de empatia.
E quando olhamos para a família e os amigos, aqueles que deveriam ser rede de apoio encontramos, muitas vezes, mais julgamentos do que compreensão. A pessoa deprimida é taxada de preguiçosa, fraca, ingrata, dramática. Essa postura só aprofunda a dor, levando muitos a acreditar que a única saída é o fim. Além disso, inúmeros transtornos mentais continuam sem diagnóstico, negligenciados durante anos, alimentando uma depressão recorrente que leva o indivíduo a descontar sua dor no próprio corpo.
Perder alguém para o suicídio é um trauma que abre feridas quase impossíveis de fechar. Para quem também luta com transtornos mentais, essa perda não é só dor: é gatilho. É como se o ato da outra pessoa desse voz às sombras internas que sussurram todos os dias que desistir também é opção. Viver, nessas condições, é uma batalha diária contra a própria mente.
Não existe final feliz aqui. Enquanto a sociedade enxergar pessoas neurodivergentes como incômodos, enquanto o sofrimento continuar sendo tratado como exagero, enquanto o cuidado for raso e protocolar, mais vidas serão perdidas. Porque o suicídio não acontece apenas quando alguém desiste: ele acontece todos os dias, na indiferença, no abandono e na frieza de um mundo que finge se importar, mas não move um dedo para sustentar quem está caindo.