Inatingível

Eu me tornei aquilo que sempre admirei à distância: alguém inalcançável, forte, enigmática. Inatingível. Uma presença que se impõe, uma fortaleza que ninguém consegue atravessar por completo. Conquistei essa postura com o tempo, com as quedas, com as dores que calejaram não só meu corpo, mas principalmente minha alma. Mas nada disso veio de graça. Existe um preço. E ele é alto.

Todos os dias, carrego o peso de manter essa imagem firme, de sustentar essa muralha que construí ao redor de mim. Sinto o medo constante de me perder dentro de mim mesma. Medo de enlouquecer em meio aos meus próprios pensamentos, de não reconhecer mais a minha essência, de me tornar apenas um reflexo daquilo que o mundo espera ver. A confiança — essa palavra tão bonita e frágil — se tornou um luxo raro. Poucos, quase ninguém, conseguem alcançar o ponto de me fazer confiar por inteiro. Porque já vi demais, senti demais, fui ferida por mãos que juraram proteção.

Aprendi cedo que o mundo não para para os nossos sentimentos. Então guardei os meus. Escondi minhas dores atrás de sorrisos calculados, de silêncios estratégicos, de olhares que dizem tudo, mas não revelam nada. Meu sofrimento é meu. Só meu. Eu o acolho em silêncio, resolvo cada parte dele nas madrugadas em que ninguém me vê. Nunca fui do tipo que desaba em público. Já chorei muito por quem não merecia, já me doei além do que era saudável, até que, em um dia que não lembro bem, minhas lágrimas simplesmente secaram.

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