Uma das maiores verdades que a vida me ensinou, ainda que de forma dolorosa, é que NINGUÉM, absolutamente NINGUÉM, é completamente confiável. Essa é uma realidade amarga, que consome a ingenuidade e a esperança com as quais muitos de nós iniciamos nossa caminhada. Mas essa revelação, ainda que devastadora, tem o poder de nos libertar das correntes da ilusão. Quando você vive cercado(a) por pessoas que parecem torcer pelo seu fracasso, quando o olhar delas carrega mais julgamento do que apoio, você percebe que o mundo não é o lugar acolhedor que um dia imaginou.
Para quem, como eu, cresceu em uma família disfuncional, essa verdade chega como um golpe duplo. Crescer em um lar onde os conflitos e os transtornos mentais se tornam rotina é viver constantemente em uma guerra emocional. E o pior? Essa guerra não é reconhecida. Ela é negada, escondida sob tapetes de orgulho e silêncio. A dor de ser a única pessoa que enxerga o caos é sufocante. Você tenta pedir ajuda, tenta trazer luz à escuridão, mas sua voz é silenciada, seus sentimentos são invalidados, e você é tratada(o) como a fonte do problema.
Ser mulher nesse cenário é carregar um peso ainda maior. Imagine não poder confiar na sua própria mãe porque ela, uma figura que deveria ser sinônimo de amor e proteção, é narcisista e manipuladora. Ela controla, mente, distorce, transforma todos ao seu redor em peças de um jogo cruel. E você? Você se torna o alvo. A pessoa que é isolada, desacreditada, transformada na “louca”, na “problemática”. Sua palavra não vale nada. Seu sofrimento é um detalhe insignificante.
E quando você pensa que pode encontrar apoio em amigos, descobre outra verdade cruel: muitas pessoas se aproximam não por afeto, mas por interesse. Elas coletam suas dores, suas fraquezas, como armas que usarão contra você. Tornam-se arautos do escárnio, transformando sua vulnerabilidade em piada, seu nome em chacota. Amigos? Família? Não importa. A traição não distingue títulos. Judas não foi o único, e o mundo está cheio de pessoas cuja crueldade superaria até a dele.
O discurso do “quero te ver bem” é apenas isso: discurso. O que essas pessoas realmente querem é te ver abaixo delas, de preferência em pedaços. E dar uma segunda chance para quem te abandonou no momento em que você mais precisou? É o mesmo que colocar a faca nas mãos de quem já te esfaqueou antes. É um ato de auto-sabotagem que não podemos nos permitir repetir.
Quando você sofre abusos e sua dor é tratada como uma inconveniência, quando sua sanidade é questionada para manter o “equilíbrio” de uma família doente, você entende o quanto as pessoas podem ser egoístas. Elas abraçam o agressor, tratam-no como um rei, enquanto te relegam ao papel de vilã. Sua luta é invisível. Sua dor é irrelevante. Sua existência é um incômodo.
E o que resta a fazer? Congelar os sentimentos. Endurecer o coração. Usar a frieza como armadura contra um mundo que insiste em te ferir. Você aprende que confiar é um luxo que não pode se dar. Se nem sua família, aqueles que deveriam ser seu porto seguro, é digna de confiança, como acreditar em mais alguém? É uma vigilância constante, um estado de alerta que consome sua energia, mas que é necessário para sobreviver.
No entanto, mesmo na escuridão, há faíscas de luz. Às vezes, pessoas inesperadas aparecem. Pessoas que, sem nenhum laço de sangue, te acolhem com bondade genuína, sem cobrar nada em troca. Elas oferecem o que sua família deveria ter oferecido: apoio, empatia, amor verdadeiro. Mas confiar, depois de tantas cicatrizes, é um processo árduo. Você teme que tudo seja uma armadilha, que, mais uma vez, sua vulnerabilidade seja usada contra você.
A confiança é frágil, mais frágil do que vidro. Anos para ser construída; segundos para ser destruída. A inveja, o narcisismo, a falsidade estão em toda parte. Até mesmo a pessoa com quem você divide a cama pode estar planejando algo pelas suas costas. Como saber? Como prever? Não há como. Por isso, a solidão, ainda que dolorosa, se torna a única certeza. Ela não trai, não engana, não machuca.
Mas, mesmo assim, há momentos em que você percebe que nem tudo está perdido. Algumas pessoas, raras e preciosas, aparecem para te mostrar que a bondade ainda existe. Que, em um mundo tão cheio de egoísmo, ainda há espaço para empatia. E é aí que você percebe que, mesmo carregando tantas feridas, ainda há motivos para seguir em frente. Porque, por mais que a solidão pareça segura, o amor e a confiança, quando verdadeiros, têm um poder de cura que nenhuma armadura pode oferecer.