Não sei exatamente como colocar tudo isso em palavras, porque a verdade é que meu psicológico chegou a um nível de abalo tão profundo que até minha capacidade de raciocinar claramente parece comprometida. É como se a dor tivesse se tornado uma presença constante, me esgotando. Eu olho ao meu redor e sinto que perdi a confiança, tanto em pessoas quanto em qualquer ideia de justiça ou bondade superior. Não sei mais em que acreditar, e muito menos em quem.
Esse ano me colocou frente a frente com a maldade humana de uma forma que eu nunca imaginei ser possível. Vi coisas que não consigo esquecer, coisas que me marcaram tão profundamente que nem lágrimas consegui derramar. O que eu senti foi diferente: um vazio, um nervosismo que me fazia tremer, um peso esmagador. Me pergunto: como é possível acreditar em um Deus que se diz justo e salvador, enquanto tanta dor e injustiça se espalham pelo mundo? Como conciliar essa ideia com a realidade de mulheres – cis e trans –, crianças, bebês, idosos, e até meninos inocentes sofrendo abusos dos mais próximos, das pessoas que deveriam protegê-los?
O que me destrói ainda mais é a indiferença. Porque, apesar de toda essa dor, o mundo parece seguir como se nada estivesse acontecendo. As pessoas olham, mas não enxergam. Ou pior, enxergam e escolhem não agir. E como se isso não bastasse, ainda temos que lidar com absurdos como a bancada evangélica, que se diz defensora da vida, mas insiste em impor leis desumanas, como a proibição total do aborto, ignorando completamente que estamos lidando com um problema de saúde pública. Essas pessoas querem controlar os corpos alheios, ignorando a dor, o sofrimento e as circunstâncias. Não importa se a gravidez é fruto de um estupro ou se coloca a vida da gestante em risco – tudo o que importa é preservar uma ideia distorcida de moralidade, enquanto vidas reais são devastadas.
Penso nas mulheres que planejaram ter filhos, mas que descobrem, no meio do caminho, que a gravidez é de alto risco. Que provavelmente não verão seus filhos nascerem porque o sistema prefere ignorar suas vidas em nome de conveniências políticas e religiosas. E não para por aí. Também vi pessoas maltratando animais de forma impune, como se fossem objetos descartáveis. Vi o preconceito sendo normalizado, como se julgar e humilhar alguém por sua cor, gênero, sexualidade ou origem fosse algo aceitável. Vi adolescentes com medo de ir para a escola porque lá enfrentam o inferno do bullying, sem saber se voltarão para casa inteiros – física ou emocionalmente.
Vi jovens sucumbindo à pressão de famílias narcisistas, que exigem perfeição e esmagam qualquer traço de individualidade, ao ponto de esses jovens tirarem suas próprias vidas. Vi pessoas armadas roubando outras por miséria, trocando seus pertences por drogas para manter um vício que o sistema não faz nada para tratar. Vi pessoas que pregam sobre Deus, que falam de amor e perdão, mas que convivem lado a lado com estupradores, protegendo-os enquanto tratam as vítimas com desprezo e indiferença.
E como não mencionar a questão do emprego? Pessoas sendo jogadas nas ruas, famílias desmoronando porque não conseguem oportunidades. Porque, ironicamente, para conseguir experiência, você já precisa ter experiência, e nem todo mundo tem acesso. O governo? Finge não ver. Fecham os olhos para a fome, para o desemprego, para a falta de moradia. É como se a vida de quem sofre fosse um detalhe insignificante.
Eu olho para o futuro e sinto medo. Medo pelos animais, que continuam sendo explorados e maltratados. Medo pelas crianças, que deveriam ser protegidas, mas muitas vezes são vítimas de violência e negligência. Medo por quem eu amo, porque o mundo parece estar cada vez mais desumano, mais cruel. E no meio de tudo isso, só me resta tentar sobreviver, de alguma forma, mesmo sem saber até onde vou aguentar.
Tento sobreviver, mas a verdade é que só estou existindo. Porque, em meio a tudo isso, lutar parece uma batalha interminável e solitária. No entanto, sigo em frente, na esperança de que, de alguma forma, possamos construir um mundo onde a humanidade volte a ser mais humana. Onde empatia, compaixão e justiça não sejam apenas palavras, mas ações concretas. Até lá, resta apenas resistir…