Sonhar

Qual é o meu verdadeiro sonho? Às vezes penso que não passa de algo simples: morrer em paz e ter minhas cinzas jogadas no mar da minha cidade natal, o lugar que, apesar de tudo, me acolheu no início da vida. Sonhos grandiosos como ser rica, famosa, viajar o mundo ou ter o corpo perfeito já não fazem sentido. Essas ambições evaporam quando a realidade se impõe como uma pedra no caminho, lembrando constantemente quem sou e de onde vim.

Preta, pobre, periférica e neurodivergente. Quando olho para essas palavras, não vejo apenas descrições — vejo barreiras, muros altos que me cercam e limitam meus passos. Cresci ouvindo que o esforço pode levar qualquer pessoa a grandes lugares, mas essa narrativa raramente leva em conta o peso das desigualdades estruturais. Como sonhar grande quando tudo ao meu redor diz o contrário? Quando, antes de qualquer vitória, preciso lutar apenas para sobreviver?

Enquanto vejo as pessoas ao meu redor comemorando suas conquistas, confesso que um misto de tristeza e resignação toma conta de mim. Não é inveja, é algo mais profundo: é a consciência de que o sistema em que vivemos não é justo, não dá as mesmas oportunidades para todos. Cada um ocupa o espaço que a vida lhe permite, mas o meu espaço parece tão pequeno, tão limitado, que às vezes me pergunto se realmente há algo além disso reservado para mim.

Não que eu não tenha sonhado antes. Sonhar é quase um instinto humano, algo que nos mantém de pé mesmo nos momentos mais difíceis. Mas, com o tempo, esses sonhos foram perdendo o brilho, engolidos pela frustração e pela percepção de que a realidade é dura e implacável. O querer e o poder andam lado a lado, mas para quem não tem recursos, apoio ou mesmo saúde mental para enfrentar o mundo, essa caminhada pode ser insuportavelmente solitária e cruel.

Há quem diga que devemos sonhar grande, mirar alto, como se isso bastasse para mudar tudo. Mas ninguém fala sobre o que acontece quando esses sonhos batem de frente com as condições reais de quem somos. A frustração não é apenas um sentimento; é um peso, uma sombra constante que torna a existência ainda mais árdua. Então, por que passar a vida inteira desejando o impossível? Por que alimentar esperanças que só trarão mais dor quando inevitavelmente se chocarem com as limitações impostas pela sociedade e pela vida?

O que resta, então, é sobreviver. Viver um dia de cada vez, lutando para manter o mínimo de dignidade em um mundo que parece não querer que eu esteja aqui. Há uma angústia constante no peito, uma sensação de sufocamento que, vez ou outra, se transforma em lágrimas frias, silenciosas. Elas caem não apenas pelo que não tenho, mas também pelo que nunca poderei ter.

Aceitar isso não é fácil, mas talvez seja necessário. Não significa desistir de tudo, mas reconhecer que nem sempre somos capazes de moldar o mundo à nossa volta. Talvez, no fim das contas, meu verdadeiro sonho seja encontrar algum tipo de paz, mesmo que seja na partida. Um sonho humilde, mas que ao menos está ao meu alcance. Porque viver, para muitos, já é o maior desafio de todos.

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